Moradores que usam ‘pior estrada da Bahia’ relatam ciclos de promessas e prejuízos
Sem pavimentação, trecho da BA-026 expõe usuários a acidentes e assaltos
A melhoria das condições da BA-026 foi promessa de campanha dos últimos governadores da Bahia. Mas, não foram cumpridas e a população padece com as más condições da rodovia.
Esses 18 km da BA-026 ficam entre Urandi (16.651 habitantes), na divisa da Bahia com Minas Gerais, e o entroncamento com a BA-156, que liga a Licínio de Almeida. É o caminho mais curto para se chegar a Guanambi, maior cidade do Alto Sertão (consórcio de 22 municípios), saindo de Licínio, Jacaraci ou Mortugaba.
Os moradores desses municípios – e de Caculé – também usam a estrada para se conectar com a cidade mineira de Espinosa. Além de populares, pela estrada trafegam diariamente ônibus interestaduais da Gontijo e Novo Horizonte, que fazem a linha Espinosa-Mortugaba e caminhões (10 por semana) que levam o maracujá e manga de Licínio para os mercados de São Paulo e Belo Horizonte.
Dependentes dessa ação governamental, aos moradores e empresas que têm a estrada como opção mais rentável de tráfego cabem aguardar e, enquanto isso, conviver com os problemas que a estrada oferece – como uma ponte prestes a desabar –, e acumular prejuízos com acidentes e assaltos, sem contar a perda de tempo para atravessar o trecho.
Muitas pedras no caminho
Devido aos cascalhos, as pedras e os buracos, os motoristas gastam uma hora para fazer o trecho, sendo que se estivesse com asfalto poderiam fazer a metade do tempo. A estrada é marcada por trechos íngremes, com despenhadeiros, locais onde só dá para passar um veículo e mal pega sinal de celular. Se tiver problema, o jeito é rezar para alguém aparecer e dar socorro.
Fora ela, a outra opção de caminho – e que vem sendo usada por ambulâncias municipais e o ônibus da Policlínica Regional do Alto Sertão, que pega os pacientes nessas cidades e os leva para Guanambi – é pela cidade de Caculé, o que faz a viagem aumentar em mais de duas horas.
Todos que trafegam pela estrada passam por cima de uma ponte de ferro sobre uma ferrovia, com 6 metros de altura, nunca reformada, e em estado de deterioração. As barras laterais de proteção quase sumiram, devido ao desgaste do tempo, e há buracos nos quais moradores jogam palhas e terra para não ficar pior – tudo em vão.
Em 24 de novembro de 2017, em Guanambi, durante a inauguração da Policlínica Regional do Alto Sertão, os quase 79 mil moradores das cidades Licínio de Almeida, Urandi, Jacaraci, Mortugaba e Caculé, no Sudoeste do estado, ouviram mais uma vez a promessa de que o trecho de 18 km da BA-026, que lhes atormenta há décadas, será asfaltado.
Dessa vez, a promessa foi do governador e candidato à reeleição Rui Costa (PT), mas antes dele, segundo moradores, o antecessor Jaques Wagner (PT) havia se comprometido da mesma forma. No final das contas, o ora candidato ao Senado não resolveu o problema da estrada, classificada pelo ex-secretário estadual de Agricultura Vitor Bonfim, num ofício de 9 de novembro de 2017, como a “pior da malha viária estadual”.
“Eu já determinei que o secretário Marcus Cavalcanti [Infraestrutura] faça o projeto dessa estrada e assim que estiver pronto vou licitar para facilitar mais a vida dessas pessoas, ano que vem a gente inicia essa estrada”, foi o que disse Rui.
Nesta quarta-feira (26), a Secretaria estadual da Infraestrutura (Seinfra), em resposta ao CORREIO, informou que o projeto de pavimentação asfáltica ainda “está em fase de elaboração”, e que “a previsão para a conclusão (do projeto)” é para o mês que vem, quase um ano depois da promessa. “Assim que finalizado, o aviso de licitação [da obra] será publicado no Diário Oficial do Estado”, promete a pasta.
Moradores
O trabalho não afasta o medo dela desabar. “Toda vez que passo por ela eu rezo e agradeço a Deus por estar vivo”, disse o advogado Fábio Oliveira, 35, que mora em Urandi e atua em cidades da região. “Só quem anda nessa estrada são pessoas que já têm os carros sucateados. Ninguém se arrisca a trafegar com carros novos”, afirmou.
Morador de Licínio de Almeida, o marceneiro Fabiano Santos Cardoso, 36, que produz móveis sob encomenda e usa a estrada para fazer entregas na região, passa pelo local entre três a quatro vezes por semana. Como não tem hora para voltar para casa – só depois de terminar as entregas – ele acaba muitas vezes passando por lá à noite.
“Meu carro já quebrou várias vezes, até à noite. É um risco grande que corro, sei disso. Mas não tenho outro jeito, esse é meu trabalho. O que precisa é o governo fazer o seu papel e asfaltar essa estrada para que possamos trafegar melhor nela e agilizar nosso tempo. Estamos assim há décadas e só ouvimos promessas, estamos cansados”, disse.
Crimes
Segundo Cardoso, os assaltos a moto e carro na área são uma constante: “Sempre ocorrem, tenho amigos que já perderam seus bens nessa estrada, eu nunca fui vítima de crime, graças a Deus. Toda semana temos relatos de problemas, seja porque o carro quebrou, perca de compromisso por causa do horário, ninguém aguenta mais”.
Gerente da Gontijo em Espinosa, Wander Kolk Moraes Fernandes diz que os problemas por conta de veículos da empresa que quebram na estrada fizeram com que a empresa colocasse a linha Espinosa-Mortugaba para ser feita num “bate-e-volta”. Antes, o ônibus trafegava também à noite. “Agora, só rodamos de dia”, falou.
“A terra vai cortando a estrada, alguns trechos são arriscados tanto pra subir quanto pra descer, é muita pirambeira. Ontem mesmo [terça-feira], dei um socorro, e hoje rodamos com um carro com motor dianteiro, único que pode atuar, carro novo, mas nem assim consegue; ele quebrou na divisa entre Licínio e Urandi”, contou.
Problemas semelhantes ocorrem com os caminhões da Cooperativa Agropecuária Hortifrutigranjeira de Licínio de Almeida e Região, composta por pouco mais de 60 pequenos agricultores que produzem cerca de 800 mil toneladas de maracujá por ano e iniciaram há três anos a plantação de manga, que ainda está com baixa produção.
“O gasto com manutenção dos caminhões é muito alto, uns R$ 2 mil por mês. E em época de chuva, é um terror. Tem de ter muita habilidade para dirigir. E esse ano, para agravar a situação, tivemos uma praga nos maracujás que fez reduzir a produção”, afirmou o secretário de Agricultura de Licínio de Almeida, José dos Santos Leal.
Um motociclista registrou em vídeo a dificuldade e perigo de transitar pelo local. Assista:
Sem investimento do Estado, prefeitos gastam com manutenção de estrada
Prefeitos de Urandi e Licínio de Almeida, cidade cujos territórios dividem quase ao meio o trecho quase intrafegável de 18 km da BA-026, informaram que a estrada só não está pior porque eles acabam sendo obrigados a dar manutenção na rodovia, devido a ausência do Estado.
O gestor de Urandi Dorival Barbosa do Carmo (PT) disse que este ano já mandou patrolar a rodovia três vezes. “E olhe que usamos, como prefeitura, muito pouco a estrada, mas sabemos que ela é essencial para os moradores da região fazerem seus negócios, então fazemos um esforço para dar uma melhorada”, declarou.
Para o gestor, as prefeituras de cidades mais próximas cujos moradores usam a estrada deveriam se juntar para fazer um consórcio que pudesse oferecer manutenção mais constante à estrada. “Enquanto ela não é asfaltada, acho que essa é uma solução viável, fica mais barato pra todo mundo, é uma ação que beneficia a região”, falou.
“Por aqui passa caminhões que fazem transporte pra Caculé, mercadoria que vem de Minas Gerais, do comércio, lojas de materiais de construção, transporte de gado. É toda uma economia que essa estrada movimenta, pega a região toda. Devemos pensar mais em ações de desenvolvimento regional”, completou do Carmo.
Para o prefeito de Licínio de Almeida Frederico Vasconcellos Ferreira (PCdoB), a estrada “está calamitosa” e disse que “já teve até um movimento pra querer fazer um protesto, fechar a estrada”. Com relação à promessa de Rui Costa, ele declarou que a “estamos querendo acreditar na palavra do governador”.
“Tem uma demanda de décadas, já teve promessas de outros governadores, mas não conseguimos ver. Com essa policlínica, meio que força o acesso e essa pavimentação asfáltica. Só daqui de Licínio saem de 20 a 30 pacientes pra Guanambi. O ônibus faz uma rota por estrada de asfalto que leva duas horas a mais, gasta mais combustível. Acredito que asfaltando esse trecho vai ser uma melhoria como um todo”, afirmou.
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