Cachês de artistas para festas públicas tornou-se um problema para prefeitos do Nordeste

Os números projetados para fevereiro de 2026 ajudam a dimensionar o peso do Carnaval na economia pernambucana. Estimativa do Hub de Dados do Comércio da Fecomércio-PE aponta uma movimentação de R$ 10,79 bilhões no mês, considerando exclusivamente a circulação de mercadorias. Mesmo com retração de 1,3% em relação a fevereiro de 2025, o volume reforça o papel da festa como um dos principais motores sazonais da atividade econômica no Estado, especialmente em um contexto de consumo mais cauteloso por parte das famílias.
O impacto direto do Carnaval, concentrado nos quatro dias de festa, deve adicionar cerca de R$ 141,8 milhões em mercadorias à economia pernambucana. Trata-se de um efeito relevante, ainda que pontual, refletido principalmente no comércio varejista e na arrecadação de ICMS, estimada em aproximadamente R$ 2,2 bilhões ao longo do mês. A própria série histórica da arrecadação confirma esse comportamento: meses com Carnaval tendem a apresentar desempenho acima ou alinhado à média, seguidos por um período de acomodação da atividade econômica.
Na avaliação da colunista Patricia Raposo/Folha de Pernambuco, No entanto, reduzir o Carnaval à circulação formal de mercadorias significa capturar apenas parte do fenômeno econômico. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) projeta que o Carnaval de 2026 deverá movimentar R$ 14,48 bilhões na economia do turismo brasileiro, com crescimento real de 3,8% em relação ao ano anterior. A expectativa inclui a criação de 39,2 mil empregos temporários, reforçando o papel do período como gerador de renda e ocupação.
Bares e restaurantes devem liderar o faturamento, com R$ 5,77 bilhões, seguidos pelos serviços de transporte (R$ 3,73 bilhões) e hospedagem (R$ 1,44 bilhão). Juntos, esses segmentos respondem por mais de 74% da receita estimada. O cenário positivo é sustentado pelo avanço do turismo internacional, com 1,42 milhão de visitantes estrangeiros previstos para fevereiro de 2026, alta de 4% em relação a 2025, além de um ambiente inflacionário mais moderado, com o IPCA desacelerando de 4,9% em 2024 para 4,5% em 2025.
Outro eixo central é a economia criativa, que encontra no Carnaval seu principal momento de ativação. Em 2023, a indústria criativa movimentou R$ 393 bilhões, o equivalente a 3,59% do PIB, segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Agremiações, blocos, artistas, músicos, produtores culturais, técnicos de som e iluminação, costureiras, aderecistas e profissionais do audiovisual compõem uma cadeia produtiva extensa, mobilizada meses antes da folia.
Há, porém, um ponto de tensão crescente. A escalada dos cachês de artistas para festas públicas tornou-se um problema central para prefeitos do Nordeste, ao pressionar orçamentos municipais já afetados pela queda de arrecadação e pelo aumento de despesas obrigatórias. O tema passou a integrar a agenda de órgãos de controle e associações municipalistas, que discutem limites para evitar que os gastos com eventos comprometam áreas essenciais da gestão pública.
Com valores cada vez mais inviáveis para cidades de pequeno e médio porte, o impacto já se traduz em cancelamentos de festas na Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia. O debate revela um desafio estrutural: como preservar tradições culturais e seus efeitos econômicos sem transformar o Carnaval e outros eventos populares em fatores permanentes de desequilíbrio fiscal.
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Folha de Pernambuco Foto Agencia Brasil
