Desaparecimento, traição e morte: o professor da Ufba morto pelo caseiro na Bahia

Vitor Athayde desapareceu após sair de casa, teve contas bancárias movimentadas e foi encontrado morto nove dias depois

Economista foi morto e teve carro incendiado por Arquivo CORREIO

O desaparecimento do economista Vitor de Athayde Couto Filho mobilizou a polícia baiana durante dias e se transformou em um dos casos criminais de maior repercussão da Bahia em 2006. Professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil e pesquisador da área de desenvolvimento econômico, ele desapareceu quando se preparava para viajar a Petrolina, em Pernambuco.

O mistério terminou nove dias depois, com a localização do corpo em um matagal na Estrada Velha do Aeroporto e a prisão de quatro envolvidos no crime. A investigação percorreu um caminho repleto de reviravoltas. Houve suspeitos identificados por imagens de câmeras de segurança, prisões em diferentes cidades, confissões, mudanças sucessivas de versão e uma reconstituição marcada por contradições. Anos depois, o caso terminou com condenações que encerraram judicialmente um dos crimes mais emblemáticos da década.

O desaparecimento

O último contato de Vitor com a família aconteceu na noite de 10 de julho de 2006. Ele informou que viajaria no dia seguinte para Petrolina, onde participaria de um evento voltado ao agronegócio. No entanto, nunca embarcou no voo programado nem voltou a ser visto em sua residência, localizada em um condomínio em Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas.

A família registrou o desaparecimento e a Polícia Civil iniciou as buscas. Paralelamente, investigadores descobriram que valores existentes na conta bancária do economista haviam sido sacados em diferentes dias e agências, aumentando a suspeita de que ele fosse vítima de um crime.

Nos dias seguintes, equipes da Delegacia de Repressão a Furtos e Roubos de Veículos (DRFRV) fizeram diligências em Lauro de Freitas e Salvador, enquanto outras unidades da Polícia Civil também passaram a atuar no caso. Apesar da mobilização, nenhuma pista concreta sobre o paradeiro da vítima havia sido encontrada.

O rumo da investigação começou a mudar quando imagens do circuito interno de uma agência do Banco do Brasil mostraram o caseiro de Vitor, que traiu sua confiança, tentando utilizar o cartão bancário da vítima após o desaparecimento. Como a conta já havia sido esvaziada, ele deixou o banco sem conseguir sacar dinheiro, mas acabou identificado pelos investigadores.

Enquanto a polícia avançava sobre os suspeitos, a família enfrentava outro problema. Depois da ampla divulgação do desaparecimento, passou a receber telefonemas simulando pedidos de resgate. Segundo os investigadores da época, as ligações tinham características de tentativas de golpe praticadas por estelionatários.

O desfecho das investigações

A solução do caso começou quase por acaso. Segundo a investigação, um policial recebeu uma informação indicando que o economista já havia sido morto e que os autores poderiam ser encontrados no interior do estado. A partir dessa pista, equipes seguiram até Feira de Santana, onde prenderam o pedreiro José Raimundo Cerqueira da Paixão, conhecido como “Abelha”.

Durante o deslocamento de volta para Salvador, José Raimundo confessou participação no crime e revelou os nomes dos comparsas, que eram seus sobrinhos. As diligências continuaram durante toda a madrugada e resultaram na prisão de outros envolvidos em Itinga, distrito de Lauro de Freitas.

Na mesma operação, os policiais localizaram o corpo do economista em uma ribanceira às margens da Estrada Velha do Aeroporto. O Fiat Palio utilizado pela vítima também foi encontrado completamente incendiado, em uma estrada de terra na localidade do Caji.

Segundo a investigação, o grupo aproveitou o fato de José Raimundo já prestar serviços no condomínio ao longo de anos para entrar no local sem levantar suspeitas. Os criminosos aguardaram o retorno do economista, invadiram a residência e o renderam dentro do imóvel.

Com as mãos amarradas e uma fronha cobrindo a cabeça, Vitor foi obrigado a entregar as senhas dos cartões bancários. Em seguida, foi colocado no banco traseiro do próprio carro e levado até a Estrada Velha do Aeroporto, onde acabou assassinado.

A polícia apreendeu posteriormente um revólver que teria sido utilizado para render a vítima e prendeu outro suspeito por posse ilegal da arma. Embora ele negasse participação direta no homicídio, o armamento foi encaminhado para perícia.

Confissões, mudanças de versão e reconstituição

Depois das prisões, José Raimundo apresentou diferentes versões para o crime. Inicialmente, afirmou que havia planejado o assassinato por vingança, alegando um desentendimento comercial com a vítima, enquanto seus comparsas sustentavam que o objetivo era roubar.

Um mês depois, durante a reconstituição, voltou atrás e afirmou ter cometido o homicídio sozinho, inocentando os sobrinhos que antes havia acusado. A nova narrativa, entretanto, encontrou resistência da polícia, que apontou diversas incompatibilidades entre o relato e as provas periciais, entre elas o fato de o corpo ter sido deixado em um local de difícil acesso, incompatível com a ação de apenas uma pessoa.

Pouco tempo depois, em audiência judicial, José Raimundo mudou novamente sua versão e voltou a responsabilizar um dos sobrinhos pelo assassinato, repetindo um comportamento que marcou toda a investigação. Para o Ministério Público, as alterações não comprometiam o conjunto de provas reunidas durante o inquérito.

Quem era Vitor Athayde

Além de professor da Ufba, Vitor Athayde Couto Filho possuía formação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal da Bahia e pela Universidade de Paris X, na França. Também havia se especializado em políticas agrícolas pela Unicamp e atuava como consultor da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), além de desenvolver pesquisas ligadas ao desenvolvimento econômico e ao planejamento estadual.

Sua trajetória acadêmica e profissional fez com que o desaparecimento despertasse ampla repercussão na Bahia, mobilizando familiares, colegas e autoridades durante os dias em que permaneceu desaparecido.

As condenações

Quatro anos após o crime, o Tribunal do Júri condenou José Raimundo da Paixão, apontado como mentor do assassinato, e Juraci Oliveira dos Santos a 41 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado. Carlos Alberto dos Santos recebeu pena de 25 anos de prisão por participação no crime. Segundo o Ministério Público, ficou comprovado que o grupo sequestrou e matou o economista na noite de 10 de julho de 2006.

Quase duas décadas depois, o caso permanece como um dos episódios criminais mais marcantes da Bahia. A combinação entre desaparecimento, movimentação das contas bancárias, investigação acelerada, sucessivas mudanças de versão dos acusados e a brutalidade da execução transformaram o assassinato de Vitor Athayde Couto Filho em uma referência histórica entre os crimes de maior repercussão registrados no estado.

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