Mortes violentas de policiais sobem 60% em quatro anos no estado

Além das mortes violentas de policiais, os dados de violência mostram números alarmantes de confrontos e vítimas em ações de segurança

Nos últimos quatro anos, a Bahia registrou aumento de 60% nas mortes violentas de profissionais de segurança, indo na contramão do cenário nacional. Entre 2023 e 2026, o Brasil apresentou redução de 42,15% nesse tipо de ocorrência. Com 36 mortes no período, o estado aparece em 4º lugar no ranking nacional, atrás apenas de Rio de Janeiro, São Paulo e Pará.

Os dados são do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. O recorte mais recente reforça a trajetória de alta no estado: nos oito primeiros meses de 2026, foram contabilizadas oito mortes violentas de agentes, o dobro do registrado em todo o ano de 2025.

Dos 36 profissionais mortos na Bahia no período de quatro anos, a Polícia Militar foi a mais atingida, com 27 vítimas. Na sequência, aparecem policiais civis (4), guardas municipais e policiais penais (2 cada) e um policial federal. Entre as vítimas, 34 eram homens e duas, mulheres.

Para o especialista em segurança pública, membro da Rede de Observatórios da Segurança e cofundador da Iniciativa Negra, Dudu Ribeiro, essa é uma consequência da forma em quе o Estado pensa a segurança pública e o enfrentamento à criminalidade. “Um dos maiores problemas no modelo atual de segurança pública é o militarismo ser o centro da elaboração da política da segurança. Nós temos um ente que age a partir da lógica da guerra e, portanto, distribui a força e a violência como o seu primeiro expediente para bairros violentados”.

A chamada “guerra contra as drogas” tem se mostrado ineficaz devido à forma como se é feita, segundo Dudu, visto que “a lógica do enfrentamento, do combate não só não combateu as facções, como as fortaleceu”; não à toa a Bahia possui mais de 20 grupos criminosos. Para além do uso de ‘fogo contra fogo’, o especialista aponta outros caminhos para esse combate, sem que se concentre energia no confronto violento.

“(Através) da inteligência, do sufocamento (financeiro), da prisão de homicidas contumazes, da retirada de circulação desses indivíduos e com inteligência que proteja a população e que não distribua o tiro como a primeira política pública que chega nas comunidades de Salvador”, explica.

LETALIDADE NÃO ATINGE APENAS OS ENVOLVIDOS

Um relatório divulgado pelo Instituto Fogo Cruzado aponta que, no primeiro semestre de 2026, 637 pessoas foram baleadas, sendo 487 mortas e 150 feridas. Deste total, 340 foram atingidas durante ações policiais, cerca de 53,3% das ocorrências.

No período, foram 656 tiroteios, dos quais 366 ocorreram em ações e operações policiais, representando 56% do total. O valor, de acordo com o Instituto, é o maior percentual da série histórica na Bahia. As localidades de Beiru/Tancredo Neves, São Cristóvão, Engenho Velho de Brotas e Pirajá lideram as estatísticas de ocorrências e mortos. De acordo com Dudu Ribeiro, os dados mostram que problema está no entendimento de quem pensa a segurança no Estado.

“É necessário entender que as comunidades que mais sofrem com eventos ligados a tiroteio sempre foram tratadas como bairros violentos e, portanto, eram alvos da política pública a partir da lógica da ameaça. Eles são, na verdade, os bairros violentados, não violentos. E como passa pelo entendimento de que aquele lugar deve ser tratado como ameaça, isso faz com que as operações continuem seguindo o padrão de distribuir a violência, quando na verdade a gente deveria ter um melhor controle do uso da força”.

Mas a violência não impacta apenas os envolvidos, forças de segurança e criminosos, mas acaba ‘sobrando’ para a população ao redor. Quatro pessoas foram vítimas de balas perdidas, de acordo com levantamento do Fogo Cruzado em agosto deste ano; valor esse que é o maior em 11 meses.

Além disso, em 2025, 252 escolas de Salvador foram afetadas por tiroteios em seu entorno, sendo que 67% dos tiroteios registrados te 67% dos tiroteios em um raio de até 300 metros das unidades, entre 6h e 22h, ocorreram durante ações policiais. Segundo Dudu, essa realidade causa diversos prejuízos a esses estudantes e jovens, e que esse é mais um reflexo da forma equivocada do agir.

“Esse deve ser um dos primeiros grandes problemas a ser solucionado com inteligência, com protocolos (de segurança), com controle do uso da força e com responsabilização dos agentes que não operam a partir da legalidade e que comprometem a vida de uma geração de jovens negros e periféricos crescendo sob a rotina da violência”.

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